Fimose infantil

Cerca de 90% dos bebês nascem com o problema, que costuma regredir até os 3 anos
Por Redação
Simbolo Imagens
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Por Luana Martins

Nos primeiros anos de vida do bebê, a fimose não deve ser motivo de preocupação. "Todo o recém-nascido nasce com a pele bem fechada ao redor do pênis. É a chamada fimose fisiológica; uma forma natural de proteção", revela Francisco Nicanor Macedo, urologista infantil do Hospital Copa D'Or, no Rio de Janeiro. Após o primeiro ano de vida, apenas 7% dos meninos permanece com a fimose. "É natural que até os três anos de vida da criança, a pele vá se abrindo e liberando a glande" garante Maria Cristina Sena Duarte, chefe do CTI pediátrico do Hospital da Lagoa e diretora-médica da Clínica Neovacinas, ambos no Rio de Janeiro.

Se essa abertura natural não acontece, a criança desenvolve, então, a chamada fimose verdadeira. Se não for tratada a tempo, pode ainda ser fator determinante para dificuldades sexuais a partir da puberdade e até aumentar os riscos de contração de doenças sexualmente transmissíveis e cânceres. "Ela causa dificuldades e dores para urinar. Ao não permitir a limpeza adequada da região, gera infecções urinárias e processos inflamatórios repetitivos, além de inchaço e vermelhidão", enumera André Guilherme Cavalcanti, chefe do serviço de urologia do Hospital Municipal Souza Aguiar, no Rio de Janeiro.

Para ter certeza de que o pequeno está com fimose verdadeira é preciso fazer o diagnóstico com um urologista pediátrico. "O diagnóstico é feito, exclusivamente, através da observação clínica. Até o segundo ano de vida, no máximo, já é possível perceber se a fimose é verdadeira ou não", garante Maria Cristina. Os especialistas alertam: é comum alguns pais confundirem o excesso de prepúcio que encobre toda a glande com a fimose. Mas se a sobra de pele não impede a exposição da cabeça do pênis, não há fimose. "Nesse caso não há motivos para cirurgia", alerta André. Por isso, a importância da avaliação de um especialista.

O que é?

"A fimose caracteriza-se pela impossibilidade de exposição da glande (cabeça do pênis) pelo estreitamento ou colamento do prepúcio - pele que recobre o pênis, protegendo de traumas e preservando sua sensibilidade", conceitua o médico André. Esta dificuldade de retração do prepúcio pode ser de diversos graus: desde um leve estreitamento, onde a glande é exposta com dificuldade e dor até uma total impossibilidade de retração e exposição da glande.

Cuidado!

São inúmeras as causas que podem levar à fimose verdadeira: inflamações constantes, traumas na região, má higiene e herança genética. A diabetes também costuma estar associada ao surgimento da fimose em adultos. Na maioria das vezes, por se tratar de um problema congênito, não existem medidas de prevenção para a fimose infantil.

Constatado o estreitamento da pele do prepúcio é preciso recorrer a um tratamento.A começar por uma boa higiene do local. "Passar bastante água e sabão evita o acúmulo de sujeiras e secreções que possam levar a problemas mais graves como inflamação, infecções urinárias", ensina Maria Cristina. Mas não force a pele que recobre o pênis para baixo na tentativa de uma melhor limpeza. Faça-o apenas até onde a pele se retrai sem esforços. Ainda que prática antiga e difundida na sociedade, os especialistas desaconselham que as mães massageiem ou puxem o prepúcio da criança na tentativa de "soltar" a fimose. "O ato pode machucar e até causar problemas psicológicos pelo excesso de exercício", alerta Francisco. "Além disso, o atrito pode levar a feridas cuja cicatrização pode prender ainda mais a pele", acrescenta Maria Cristina.

Como forma de prevenção, alguns especialistas têm apostado na chamada "cirurgia preventiva". "Conhecida também como circuncisão neonatal, ela pode ser feita no recém-nascido. A retirada total do prepúcio, além de evitar a fimose diminui em até 30% o risco de contração de doenças sexualmente transmissíveis, como a herpes, o HPV e o HIV", revela Francisco. No entanto, André acredita que a cirurgia não deve ser estimulada na infância. "É comum em algumas regiões e religiões (como a judaica) a realização da circuncisão uns oito dias após o nascimento, mas acredito que não se deva fazer uma cirurgia tão cedo se, na maioria dos casos, o descolamento costuma ocorrer naturalmente", argumenta o especialista.

Quando o assunto é a cura da fimose, dois são os tratamentos mais aceitos: pomadas à base de corticóides e hialuronidases (enzimas que desfazem as fibras que formam o anel fimótico) e a cirurgia (postectomia). "As pomadas funcionam desprendendo a pele quimicamente. Elas só funcionam quando a fimose é parcial, isto é, parte da pele já se desprendeu e a outra não. Nos outros casos, são apenas paliativas e a pele costuma se prender novamente quando seu uso é cessado. No entanto, ajudam ao adiar a necessidade de cirurgias até que a criança fique mais velhinha", afirma Maria Cristina.

A cirurgia, por sua vez, pode ser usada para retirar apenas o anel fimótico (preservando o prepúcio) ou todo o prepúcio (circuncisão). E, ela pode ser realizada de duas formas: a cirurgia clássica ou a cirurgia com colocação de um anel. Enquanto a primeira dura cerca de 30 minutos, a técnica do anel (Plastibell®) pode levar apenas dez minutos. Ela consiste na introdução de um anel plástico ao redor da glande (por dentro do prepúcio) e amarrado com um barbante próprio. O nó corta a pele e, em algumas semanas, todo o conjunto (anel e barbante) cai, deixando uma cicatriz mais estética que na cirurgia tradicional.

Já os pós-operatórios têm durações diferentes e podem pesar na escolha final. "O tratamento cirúrgico convencional tem a vantagem de uma cicatrização rápida, de apenas uma semana", aponta Francisco. "Já o anel pode demorar até quatro semanas para cair e, pode ser preciso ir ao centro cirúrgico para a retirada do anel", aponta o especialista. Ambas técnicas são simples e no mesmo dia a criança retorna à casa. O pós-operatório também é tranqüilo nos dois casos.

Vale lembrar, entretanto, que a escolha do tratamento deve ser feita pelo especialista. "O procedimento varia de acordo com a situação de cada criança e sua idade. No caso de recém-nascidos, por exemplo, o anel precisa ser posto para não haver regressão", explica Maria Cristina.