Pessoas invisíveis
Stella Florence
Por Stella Florence*
Por dez anos eu trabalhei como secretária executiva, seguindo uma rotina comum à inúmeras brasileiras: acordar cedo, bater ponto, cumprir tarefas, almoçar num restaurante por quilo, tricotar uma ou outra besteira com os colegas, cumprir mais tarefas, pegar ônibus, voltar para casa.
Durante esses dez anos por diversas vezes experimentei uma estranha sensação: a de ser invisível. Era assim: eu poderia estar triste, cansada, até mesmo doente, poderia estar irradiando felicidade, conversando com samambaias ou até vestida de Elke Maravilha que ninguém notava, nem mesmo meus chefes. Por quê? Porque eu era uma secretária e secretárias são invisíveis.
Da mesma forma, copeiras são invisíveis (a não ser que derrubem uma xícara de café numa reunião), office-boys são invisíveis (a não ser que deixem de entregar um documento), porteiros são invisíveis (a não ser que demorem dois segundos para abrir a porta), moças nos caixas dos supermercados são invisíveis (a não ser que digitem algo errado), frentistas são invisíveis (a não ser que se esqueçam de calibrar os pneus), mendigos são invisíveis (a não ser que peçam um trocado).
Vira e mexe um veículo de comunicação ou uma ONG traz à baila a questão do que fazer para que a cidade em que vivemos se torne mais humana - e o Natal é uma época em que essa questão se acentua. Talvez uma das respostas mais simples seja: olhar nos olhos das pessoas que nos servem e, se possível, fazer um comentário agradável. Se um garçom tem os olhos muito verdes, que tal brincar? "Rapaz, que estrago eu faria se tivesse esses seus olhos...". Ou então, se a atendente da farmácia está com olheiras monumentais, por que não perguntar "está tudo bem com você?". O ato de trocar duas palavras, se aproximar, mostrar ao outro que ele não é invisível já seria o suficiente para o clima de qualquer cidade - e o nosso clima vibracional - melhorar. O que nos impede, então, de cultivarmos esse hábito?
Medo. Medo de que os outros se aproximem e roubem nosso tempo, peçam nosso dinheiro, se insinuem dentro de nossas vidas. Medo de que, abrindo uma brecha, o terrível outro possa invadir nossa cozinha, comer nossa comida, lavar os cabelos com nosso xampu, roubar nossos amigos, dar em cima do nosso homem. Esse medo, tão arraigado quanto sem sentido, faz com que nos esforcemos para agir como se os outros fossem invisíveis.
O pior é que, aos poucos, não só os rostos dos estranhos como também das pessoas mais próximas - mãe, irmão, amiga, namorado - começam a perder os contornos. A invisibilidade é voraz e não respeita limites. E quando todos ao redor tiverem sido devorados, talvez você (e eu) se olhe no espelho e perceba que também já desapareceu há muito, muito tempo.
*Stella Florence nasceu em 67, tem uma filha, 30 tatuagens e oito livros, entre eles "Hoje Acordei Gorda" e "32 - 32 anos, 32 homens, 32 tatuagens". A mescla de humor e drama, além do verbo ácido, se tornou a marca registrada de sua literatura. Stella é tão alucinada por Gabriel García Márquez que sua cama (sim, sua cama!) tem o mesmo apelido do escritor colombiano: Gabo. Cada louco com sua mania... www.stellaflorence.kit.net












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