Músicas românticas

Duas coisas que acho bregas: dois casais saírem juntos (chamo isso de fazer um “Abba cover”) e aquela coisa de “a nossa música” que alguns casais têm – Por Eduardo Haak     Estava ouvindo o Barry Manilow ontem quando pensei nisso. (Às jovens leitoras do iTodas: Barry Manilow é um cantor romântico que fez muito sucesso [...]
Por Redação

Duas coisas que acho bregas: dois casais saírem juntos (chamo isso de fazer um "Abba cover") e aquela coisa de "a nossa música" que alguns casais têm - Por Eduardo Haak 

  

Estava ouvindo o Barry Manilow ontem quando pensei nisso. (Às jovens leitoras do iTodas: Barry Manilow é um cantor romântico que fez muito sucesso nos anos 70. Uma vez, quando eu tinha uns seis anos, disse para uma tia, na frente de vários parentes, “Tia, você se parece com o Barry Manilow”. Ela riu, mas intimamente deve ter querido me matar.) Como eu dizia, estava ouvindo ontem o Barry Manilow, sua fatídica “Could it be magic”. É uma bela canção.

 

Manilow tomou emprestada uma progressão harmônica de Frederic Chopin, incomum em música pop, temperou-a com alguma coisa meio Maurice Ravel, colocou uma letra desbragadamente passional e o resultado disso acabou sendo um dos maiores hits de todos os tempos. Então pensei por que raios cantores/compositores indiscutivelmente talentosos que emplacam grandes canções românticas, como Peter Cetera, “If you leave me now”, Cristopher Cross, “Sailing”, sempre acabam estigmatizados? Não, sendo mais preciso eu diria mesmo: acabam amaldiçoados?

Meu palpite é que esses sujeitos acabam virando reféns de um grande desempenho, momentâneo e talvez casual, num determinado assunto. É que nem o sujeito que um belo dia faz uma tirada engraçada e então todo mundo passa a vê-lo exclusivamente como um palhaço e passa a esperar dele única e exclusivamente palhaçadas – esse sujeito perde o direito à integridade usufruída por todo ser humano, de ser às vezes melancólico, às vezes otimista, às vezes casto, às vezes luxurioso, às vezes trágico e, claro, às vezes cômico. O Barry Manilow, com seus paletós vermelhos de cetim e seu piano branco, é claramente um refém das pessoas que esperam dele sempre um novo passe de mágica à altura de “Could it be magic”, de “Mandy”, de “Ready to take a chance again”, uma nova dose da mesma coisa de sempre, e que dê exatamente o mesmo barato. E ai do Barry Manilow se um dia ele não estiver muito a fim e resolver compor uma coisa meio, sei lá, meio “Whipping Post”, do Allman Brothers (“Minha mulher tem me tratado como um idiota, torra toda minha grana, bateu meu carro novo e a agorinha mesmo está num bar por aí, bebendo com meu ex-melhor amigo, sabe, às vezes eu me sinto como se estivesse sendo chicoteado”).

Se bem que, pensado melhor, quase ninguém tem envergadura para fazer mais do que uma coisa bem feita. Outro dia estava discutindo isso com uma amiga, que anda numas de estudar trigonometria por causa de um curso de astronomia que está fazendo. Eu disse, “Vai com calma, ô. Quer dar uma de gênio renascentista e dominar todo o conhecimento humano?”. Ela disse que era por aí mesmo. Então eu lhe lembrei que Einstein era um violinista medíocre, que o Pelé como cantor e tocador de violão é um genial jogador de futebol, que o Paul McCartney, a despeito de seus múltiplos talentos, como ator é um canastrão pior que o Vítor Fasano. Ou seja, ninguém consegue assobiar e chupar cana com igual destreza, ninguém.

 

E volto então ao Barry Manilow. Percebo que tentei limpar a barra do Barry, tentei sugerir que ele virou um refém de um público idiota e monomaníaco e que ele seria apedrejado por esse público se resolvesse cantar algo como “Eu me casei com uma vagabunda”. Tentei imaginar a hipótese de que no fundo ele não é brega (não consigo admitir que alguém possa ser intrinsecamente brega, acho que a criatura dita brega é sempre vítima de um equívoco ou, na pior das hipóteses, de uma perversão momentânea). Mas agora, pensando melhor, acho, sim, que provavelmente o único negócio em que o Barry Manilow é bom mesmo seja música cafona, pianos brancos e ternos de cetim.

Eduardo Haak é escritor e amigo da mulherada

 

http://www.eduardohaak.kit.net/

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