Dinheiro sem brigas

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Por Daniela Pessoa

Desde que a mulher despontou no mercado de trabalho e ganhou mais independência, inclusive financeiramente, as histórias de casais que não conseguem conversar sobre dinheiro - e, pior, que não sabem administrá-lo juntos - se tornaram mais frequentes. Amor, amor, negócios à parte. Quando o assunto é grana, cada um quer saber do seu lado. Aí todo mês é aquela velha história: faltou dinheiro e vale tudo para sair do vermelho. Culpa de quem? Começa o festival de acusações. No entanto, na planilha de orçamento não há espaço para a guerra dos sexos. Com organização e um pouco de disciplina, todo casal pode viver bem e transformar o dinheiro não em problema, mas em solução.

É o que prega Gustavo Cerbasi, consultor financeiro e autor de Casais inteligentes enriquecem juntos (Editora Gente): "O problema em si não é a falta ou excesso de dinheiro, mas a ausência de conversa sobre ele. Falar sobre finanças em casa ainda é um tabu, mas os casais devem procurar mudar esse pensamento e se disporem a conversar abertamente sobre isso. Só vai render bons frutos", garante. Para os especialistas em finanças, a cumplicidade e o planejamento são os segredos do sucesso emocional e econômico dos parceiros.

Para gerir os recursos que entram em casa não é preciso ser economista - nem egoísta. Saber, por exemplo, quanto o seu companheiro ganha e ser sincera com ele em relação aos seus rendimentos não é nenhuma quebra de sigilo. "É um sinal de que a comunicação vai bem", garante Cerbasi. Roberto Zentgraf, professor do Ibmec e colunista do jornal "O Globo", assina embaixo. "A primeira medida a ser tomada por um casal que quer prosperar e fugir dos apertos é sentar e conversar. É preciso deixar de lado preconceitos bobos, como o de que mulher não entende de finanças. Não há nada que comprove que o sexo define esse tipo de capacidade. Ambos são capazes", afirma Roberto, que adora os palpites e estratégias traçadas pela esposa, a administradora Ana Luiza Bartholo. "Ela já abriu meus olhos em relação a muitos gastos supérfluos que eu estava ‘colecionando'", afirma Roberto.

Dado o primeiro passo - a transparência - em direção a um planejamento financeiro eficiente, conheça estratégias que não podem faltar nos planos de gestão do casal.

Lidando com as diferenças

Cada pessoa é criada de forma diferente em relação ao dinheiro. Na casa de Marcos Dias*, arquiteto, a educação que ele recebeu não bateu com a da esposa. E fim de papo - os dois estão em processo de divórcio. Amigável, mas, quem sabe, poderia ter sido evitado com uma boa conversa. "Minha mulher foi educada para receber mesada do marido e enxergá-lo como provedor de todas as suas necessidades. Não a culpo, mas penso diferente, acho que as despesas precisam ser divididas. Afinal, casamento é isso: dividir alegrias, tristezas e contas. Senão, as pessoas continuariam morando sozinhas", afirma Marcos, que, apesar de incomodado, nunca parou para falar com a mulher sobre o assunto. "Quando vimos, já era tarde demais", lamenta.

Por isso, segundo especialistas, é importante saber lidar com a ‘personalidade financeira' do parceiro para não criar confusão em casa. Entendendo o ‘consumismo' de um ou o ‘egoísmo' do outro é possível chegar a um acordo sobre a melhor maneira de administrar o dinheiro do lar, sem conflitos.

Metas e objetivos

O primeiro passo dessa administração é estabelecer objetivos em comum. "Se um dos dois quer viajar e está fazendo das tripas coração para economizar, enquanto o outro não vê a viagem como prioridade e, por isso, não cortou gastos, então o casal tem um problema", afirma Roberto Zentgraf. "É quando os sonhos de um vão se realizando em detrimento do sonho do outro", alerta Gustavo Cerbasi. Segundo ele, o dilema é ainda mais comum entre casais que ganham bem. "Os que passam por dificuldades se unem para superá-las, enquanto os mais providos isolam-se em dois mundos", ressalta.

Para cortar o mal pela raiz, o casal precisa colocar no papel os sonhos em comum e metas para alcançá-los. Gustavo Cerbasi recomenda pegar um feriadão ou um final de semana para sentar e discutir com o parceiro sobre os ganhos, gastos e metas. "Na discussão, entra a questão do padrão de vida que eles querem manter", explica Gustavo. "Se planejam uma segunda lua-de-mel e, para isso, precisarem se mudar para um loft pequeno, paciência. Existem muitos lofts charmosos por aí e, com o dinheiro que você economiza com o condomínio mais em conta, é possível ir poupando aos poucos", sugere Gustavo.

Ele também é defensor da conta conjunta. "Essa história de ‘eu ganho isso, você ganha aquilo' pode ser perigosa", alerta Cerbasi. Segundo ele, a renda da família deve ser uma só. "Temos que unir forças. Duas contas correntes distintas separam os investimentos", afirma. Mas o professor de finanças Roberto Zentgraf acha que essa é uma questão a ser discutida pelo casal. "Decidir quem vai pagar mais ou menos do montante de despesas, se vai ser proporcional ou se repartido igualmente, isso cada casal decide como for melhor para a relação. Eu e minha mulher, por exemplo, temos contas separadas, mas eu sei quanto ela ganha e vice-versa. Isso é ser um casal. Mas preferimos manter nossas contas separadas", conta.

Voltando às metas, estabelecê-las é ainda mais importante para driblar a rotina do casamento. "Ela surge como consequência da falta de dinheiro", constata Cerbasi. De fato, o dia-a-dia tende a ser um tédio quando o romantismo de um jantar à luz de velas é posto em cheque pela ausência de dinheiro, que enterra os sonhos e desejos. Portanto, se organize! "A fórmula do sucesso é gastar menos do que se ganha e investir a diferença. Para isso, é preciso disciplina na hora de juntar e, depois, de fazer o dinheiro trabalhar sozinho", revela Cerbasi.

Bendita planilha

Helena Kaneko, dona de casa, não deixa passar nenhuma despesa sem anotar na planilha de gastos do computador. "Sem uma planinha de despesas, perdemos o controle da situação. E é preciso organizá-la de forma prática: meu marido e eu, por exemplo, separamos por tipos de gastos. Contas mais pesadas - como luz, gás, telefone -, contas mais leves, e por aí vai. Também separamos o extra do que é mensal. Sempre tem que sobrar um dinheirinho!", diz Helena.

Dividir os gastos em grupos é mesmo um bom caminho para organizar as despesas de casa. Especialistas recomendam as seguintes divisões: habitação (aluguel, IPTU, seguro residencial, água, luz etc), saúde (assistência médica, odontológica, farmácia, academia etc), alimentação (alimentação em geral, supermercado, incluindo produtos de limpeza e higiene pessoal, etc), educação (escola / faculdade, material didático, cursos, livros etc), transporte (transportes públicos, prestação do carro, IPVA, seguro, manutenção, gasolina, multas etc), cultura e lazer (cinema, restaurante, teatro, assinatura de jornais, revistas, TV fechada, Internet etc), despesas financeiras (tarifas bancárias, juros, empréstimos etc) e, finalmente, telefone celular, vestuário, faxineira, viagens, entre outras coisas.

Além de organização, você ganha também mais facilidade para enxergar em que economizar. Com uma tabela estabelecida, fica mais fácil cortar os excessos.

Contenção de gastos

O psicólogo e matemático Daniel Kahneman levou o Prêmio Nobel de Economia em 2002 ao provar que não somos racionais na hora de decidirmos sobre como gastar nosso dinheiro. Além disso, é comprovado que as despesas caminham numa linha quantitativa superior à do contracheque, ou seja, quanto mais você ganha, mais tende a gastar. Sendo assim, todo cuidado é pouco. É preciso administrar o orçamento e fugir das dívidas, que, segundo Cerbasi, são especialmente perigosas aqui no Brasil. "Aqui, temos um dos juros mais altos do mundo. As dívidas vão crescendo rapidamente e o sonho de ficar no azul vai se tornando cada vez mais distante. É como acelerar o carro e derrapar na pista sem sair do lugar", reflete o consultor financeiro.

Mas economizar, ao contrário do que parece, é simples. Acompanhe algumas dicas de ouro:

- Comece a cortar o que Roberto Zentgraf chama de ‘gastos financeiros'. Juros, multas atrasadas, excesso de tarifas bancárias etc. "Tenha apenas uma conta. Para que ter três, quatro, e pagar ainda mais tarifas?", questiona.

- Livre-se dos supérfluos. Substitua o lazer pago pelo não pago, leve a comida de casa para não ter que gastar almoçando fora, faça as unhas só uma vez por semana, ao invés de visitar a manicure quase todo dia, vá com uma verba pré-determinada para o supermercado e por aí vai. Helena Kaneko, dona de casa, ensina como ela faz para economizar com as roupas. "Faço um bom estoque frequentando feirinhas! A gente sai cheia de sacolas e com o bolso ainda gordo", aconselha Helena, que nem por isso dispensa uma boa marca. "Mas não é sempre que a gente precisa de etiqueta, né?", brinca.

Segundo Cerbasi, nessas horas também é importante contar com a família. "Se for possível, em épocas de aperto faça algumas refeições na casa de parentes e peça para eles não combinarem programas caros", aconselha. Mas lembre-se de que "economizar não significa cortar plano de saúde, por exemplo", frisa Roberto. Você e o parceiro devem, aí sim, resistir ao carro novo, à roupa da vitrine, entre outras coisas sedutoras. Procurem produtos mais simples e funcionais ao invés de optar pelos mais sofisticados, como celulares que só faltam fazer fogo.

- Pesquisa: a palavra de ordem é pesquisar preços. "Veja o meu caso: eu comprava remédio em farmácias de preços mais populares e achava que estava fazendo o certo, mas minha esposa me alertou que, comprando via Internet, saía bem mais barato, com desconto de 35%", ilustra Roberto Zentgraf. Ele também recomenda tomar cuidado com as tarifas telefônicas. "Eu tinha gastos absurdos com o meu celular. Foi quando a Ana, minha mulher, descobriu que um plano família sairia muito mais em conta. Assim, ficamos com dois celulares - um para mim e um para ela - e eu assumi os gastos, mas acabei tendo menos despesa do que quando eu tinha um celular sozinho", diz Roberto.

- Cuidado com o cartão. Segundo Gustavo Cerbasi e Roberto Zentgraf, ele não deve ser abolido, porque é uma comodidade. O que não vale, porém, é se endividar às custas do dinheiro de plástico. "Compre o que você sabe que vai poder pagar, é uma questão de bom senso", diz Cerbasi. A dona de casa Helena Kaneko tem cartão, mas não usa. "Se tenho dinheiro para gastar, tenho. Senão, não compro. Não gosto de ficar dependendo de cartão, de parcelas. A não ser que seja um valor muito alto, aí sim uso o cartão, mas as parcelas têm que ser sem juros", ressalta Helena.

- Poupe de 10% a 20% do que você ganha para fazer uma reserva. Se for muito para o casal, espere a estabilidade chegar e poupem cada vez mais, até chegar aos 20%, atingindo um padrão linear de consumo. "Ganhando mais, você não precisa gastar mais", brinca Roberto Zentgraf.

E se der zebra e vocês se endividarem, adote a postura que Cerbasi chama de ‘para tudo!'. "Se é tarde demais e vocês já entraram no cheque especial, é hora de uma atitude radical. Chame a família - incluindo filhos - para uma conversa. Com as crianças, combine uma ‘gincana de economia'. Enfim, torne a situação ao menos um pouco lúdica para elas, porque problemas financeiros pesam nos ombros de qualquer um", afirma Gustavo.

Reserva tática

É muito importante resgatar aqueles 10% ou 20% que foi sendo poupado do orçamento para fazer aplicações que façam o dinheiro render. Assim, garante-se um fundo para emergências ou para outros planos. Devemos prezar, afinal, por uma verba para garantir o futuro.

Em se tratando de um casal jovem, segundo Gustavo Cerbasi, são recomendados os fundos de renda fixa. "Esse tipo de investimento é mais ousado, porque o dinheiro não pode ser retirado a qualquer hora. Mas um casal jovem geralmente não passa por emergências de saúde, por exemplo. Portanto, podem deixar o dinheiro ‘parado', mas rendendo", explica.

Já o casal mais velho deve ser mais conservador, já que não pode ficar contando com os altos e baixos do mercado. "Para a classe média, o melhor tipo de aplicação são os planos de previdência, que têm uma relação custo-benefício muito boa", recomenda Gustavo. Casais com mais conhecimentos financeiros podem, ainda, comprar ações e títulos.

Segundo Roberto Zentgraf, se vocês não entendem sobre o mercado financeiro, procurem se interar. "Saibam o que está acontecendo no mundo, como isso se reflete na economia, façam cursos, procurem um consultor, enfim, mais uma vez, pesquisem!", ensina Roberto, que não recomenda, porém, recorrer à ajuda de gerentes de banco. "Pode haver interesse por trás do que o gerente vai te oferecer, porque ele tem que cumprir uma meta no banco", alerta.

A dona de casa Helena Kaneko e seu marido sempre apostaram nos investimentos para não deixar o dinheiro ‘parado'. "Sempre aplicamos o extra. Já tivemos ações na Bolsa, mas acabamos desistindo, porque estava oscilando muito. Aí resolvemos investir em bens", conta Helena. E deu certo! A dona de casa e o marido ajudaram o filho, mais tarde, a montar seu consultório odontológico. "Sem essa reserva, não teria sido possível", conta. "Hoje, estamos fraquinhos, mas recomeçando com força total", anima-se ela, que se orgulha de não ter discussões por causa de dinheiro em casa. "Nosso padrão não é nem lá no alto, nem lá embaixo. É na média, mas o importante é que somos muito felizes", finaliza Helena.

Depois de tanto empenho e disciplina, é só comemorar - e contabilizar - as vitórias!





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