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Vamos ser cuidadosos com os anticoncepcionais
Ora, um medicamento com tantos riscos não pode ser tratado como se fosse inócuo. Por isso ele é um medicamento de tarja vermelha, no Brasil, ou seja só pode ser vendido sob prescrição médica.

Por Alex Botsaris*

Quando estava preparando o material para esse artigo, dei uma olhada no que está sendo publicado por aí, como faço sempre, e levei um susto. Tem muito material publicado que parece que foi escrito por um funcionário do marqueting da indústria farmacêutica. Isso, por si só dá a importância de se escrever sobre esse assunto de forma independente e revelando as informações com o máximo de compromisso com a realidade e com o respeito a saúde e ao bem estar da mulher. Os textos a que referi acima fazem uma apologia aos anticoncepcionais modernos, drogas que parecem só apresentar benefícios, e cujos riscos são completamente minimizados. São conteúdos que levam as mulheres a usar esses medicamentos sem fazer uma reflexão mais profunda das implicações, a longo prazo, dessa opção.

O ponto onde acredito, haja a questão ética mais delicada, é no dimensionamento do risco de câncer ginecológico (em especial de mama) com o uso prolongado de hormônios femininos sintéticos, como os empregados nos anticoncepcionais. A avaliação alardeada de ausência de risco se baseia, especialmente, num estudo epidemiológico publicado em 2002 chamado “Womens Care Study” onde cerca de 9 mil mulheres foram avaliadas em vários centros médicos, e não houve diferenças significativas na incidência de câncer entre as que usaram e as que não usaram anticoncepcional. Entretanto esse não é o único grande estudo epidemiológico realizado sobre esse assunto, e sabemos que fatores como a metodologia e o desenho do estudo podem ter contribuído para esse resultado negativo.

Existem, pelo menos mais dois grandes outros estudos, onde diferenças significativas da incidência de câncer foram identificadas nas mulheres que usaram anticoncepcional por mais de 10 anos. O mais recente, publicado em 2003, foi patrocinado pelo NCI (National Câncer Institute), dos EUA, considerado uma das principais instituições de combate ao câncer no mundo, e revelou que o uso de anticoncepcional, em especial em mulheres jovens, era um fator de risco para câncer ginecológico. Por isso esse assunto não é uma unanimidade na ginecologia, e ainda existem ginecologistas mais cautelosos, que colocam algumas restrições no uso de anticoncepcionais. Eu também sou da opinião que há um aumento do risco de câncer com uso de hormônios sintéticos, e por isso medidas preventivas devem ser tomadas para minimizar esse risco.

Por exemplo, mulheres que possuem uma história familiar importante de câncer ginecológico, no meu entender, deveriam evitar o uso de anticoncepcional à base de hormônios. Essas mulheres podem ter genes que facilitam o aparecimento do câncer e o estímulo hormonal funciona como um fator desencadeante da doença. Não houvesse nenhum risco, os oncologistas não teriam verdadeiro pânico que suas pacientes com câncer ginecológico chegassem perto de qualquer hormônio feminino. Isso porque, sabemos pelas pesquisas, que os hormônios se ligam a receptores nas células, que estimulam a sua reprodução, e o estímulo excessivo desses receptores pode gerar uma célula cancerosa, ou ainda fazer com que um câncer se alastre.

Outro ponto onde eu discordo da atual orientação que tem sido feita pela maioria dos ginecologistas, é no abandono da suspensão anual da pausa dos anticoncepcionais por um ou dois meses, para que o ovário assumisse os ciclos menstruais. Esse esquema, proposto pelos ginecologistas na década de 80, visava evitar que o ovário ficasse inibido por muito tempo seguido, e com essa medida tentava evitar casos de infertilidade que começaram a ser descritos com uso de anticoncepcional. A indústria farmacêutica descobriu que esses períodos de parada eram os momentos onde havia maior possibilidade da paciente descontinuar o tratamento, e resolveu investir em estudos que provassem que o uso continuado não causa infertilidade.

Os estudos foram feitos, e seus resultados foram os esperados pela indústria farmacêutica. Entretanto, quem financia o estudo, sempre organiza as coisas da forma que seja mais favorável aos seus interesses. Por isso, se eu fosse mulher, não deixaria o meu ovário completamente sem função por anos e anos a fio, porque simplesmente não me sentiria segura com isso, numa época que os casos de infertilidade estão cada vez mais freqüentes. Os anticoncepcionais não são apenas inibidores da ovulação. Eles bloqueiam o funcionamento dos ovários como um todo, evitando a formação de folículos e corpo lúteo, como acontece num ciclo normal. É uma questão de bom senso saber que inibir a função de um órgão por tempo prolongado, deve ter conseqüências. Por uma questão de segurança, não custa verificar todo ano, que o ovário reassume o controle do ciclo menstrual, quando o anticoncepcional é suspenso. É uma segurança para a mulher que deseja ter um filho e quer evitar a infertilidade.

Por fim existe o problema do risco cardivascular e de doença tromboembólica. Os hormônios dos anticoncepcionais atuam aumentando a adesividade das plaquetas. Algumas mulheres são mais sensíveis a esses efeitos e são as que podem a ter complicações com o uso continuado dos anticoncepcionais. Nessas mulheres as plaquetas podem formar uma trombose nas veias da perna, ou então podem começar a aderir na parede dos vasos causando infarto ou acidente vascular cerebral. Isso cria uma contra-indicação do uso prolongado de anticoncepcionais em pessoas com história familiar muito forte dessas doenças, ou ainda naquelas mulheres com fatores de risco para aterosclerose e trombose, como varizes, obesidade, diabetes, portadoras de colesterol elevado, portadoras de pressão alta, ou ainda nas fumantes.

Não bastasse os riscos sobre da saúde humana, alguns estudos recentes tem mostrado que os hormônios sintéticos estão entre os medicamentos que mais causam danos ao meio ambiente. Essas substâncias saem na urina e vão parar nos rios e esgotos locais. Seu principal dano ambiental é interferir com a reprodução de peixes e outros organismos aquáticos, tanto em rios quanto nas regiões costeiras, onde há o deságüe de dejetos das cidades. Os hormônios sintéticos competem com os hormônios dos animais marinhos nos receptores, afetando o seu efeito fisiológico, e com isso os óvulos não conseguem amadurecer e se tornar embriões. Esse fator tem feito as agências ambientais de países europeus como a Suécia, a orientar os médicos a reduzir a indicação dessas substâncias aos casos que realmente necessitem, para reduzir sua prevalência no meio ambiente.

Ora, um medicamento com tantos riscos, não pode ser tratado como se fosse inócuo. Por isso ele é um medicamento de tarja vermelha, no Brasil, ou seja só pode ser vendido sob prescrição médica. Não sou ginecologista e não prescrevo esses medicamentos, mas acredito que é necessário, ainda, muito cuidado na sua prescrição. Já tive a tristeza de observar mulheres usando anticoncepcionais orais, apesar de exibiram fatores de risco para doenças onde essas drogas deveriam ser evitadas. Observei também colegas defendendo o seu uso continuado como absolutamente seguro quanto ao risco de câncer ginecológico, fato que, como mostrei acima, ainda é motivo de dúvidas na medicina.

Não sou um radical contra os anticoncepcionais orais, mas acho que a medicina exige muita cautela. Infelizmente, nós médicos, estamos nos tornando em fantoches da indústria farmacêutica, e acabamos fazendo o que os laboratórios farmacêuticos nos induzem a fazer, sem fazer maiores questionamentos. Precisamos ser cuidadosos, e proteger o máximo os pacientes, usando o principio da precaução. Esse princípio diz que, havendo uma dúvida, devemos evitar os riscos sobre a vida e a saúde das pessoas. Podemos usar os anticoncepcionais orais, mas sempre com todas as medidas de precaução necessárias para evitar os riscos potenciais.

* Alex Botsaris é médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, especializado em doenças infecciosas pelo Hospital Claude Bernard, de Paris, e em acupuntura e medicina chinesa pela Sociedade Internacional de Acupuntura, na França, e pela Universidade de Pequim, na China. É ex-presidente do Instituto Brasileiro de Plantas Medicinais (IBPM), consultor de saúde e biodiversidade da Natura e uma autoridade em de plantas medicinais. Autor de livros como: “O Complexo de Atlas”, “Sem Anestesia”, “As Fórmulas Mágicas”, “Segredos Orientais da Saúde e do Rejuvenescimento”. Acaba de lançar “Medicina Complementar – vantagens e questionamentos sobre as terapias não-convencionais” e “O Doce Vôo da Juventude”.

 
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