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A mulher que não está apaixonada por você
Talvez vocês subam a seu apartamento para transar. E ela não pedirá desculpas por não ter se depilado

por Eduardo Haak
 
As mulheres mais legais, as amantes mais irrepreensíveis, são aquelas que gostam de você, sentem atração por você, mas felizmente não estão apaixonadas por você. Você, para elas, é uma paisagem e um repertório de assuntos que podem ser conversados vez ou outra. Você é um corpo de que elas podem dispor para experimentar prazer. Você é um ator sincero com quem é divertido ou até mesmo estimulante contracenar. Você é um CD que elas colocam de vez em quando no aparelho, quando realmente sentem saudade de ouvir aquelas músicas, dispostas naquela ordem. Sim, você é um bom CD. Mas – você sabe disso – sua qualidade, seu poder de persuasão, seu encanto, tudo isso depende de você não estar o tempo todo comutado, exposto, obscenamente disponível. “Kind of Blue”, do Miles Davis, é um disco extraordinário. Mas mesmo “Kind of Blue” pode se converter num instrumento de tortura se for ouvido por 48 horas ininterruptas.

A mulher que não está apaixonada por você olha para você, e não através de você. Ela não te simplifica, não te reduz a um protagonistazinho de livreco romântico açucarado do tipo Sabrina, para que, assim, você possa caber na fantasia dela. Também não te oculta suas, entre aspas, vadiagens eventuais, suas condutas, entre aspas, torpes. (Talvez você até mesmo se torne o homem para quem ela confessará todos seus pecados. É um barato quando isso acontece.) A mulher que não está apaixonada por você concorda com sua convicção de que a frase “eu te amo” é, sempre, na melhor das hipóteses, hipócrita, e na pior, desvaladamente ameaçadora.

A mulher que não está apaixonada por você não é uma dessas neuróticas que, ao receber um convite para um encontro, corre desesperada para fazer o cabelo e as unhas, e monta todo um discurso de modo a vender o próprio peixe da melhor forma possível. Ela também não tem um repertório de perguntas indutivas para sondar quais são, no fundo, suas intenções para com ela. Ela, a mulher que não está apaixonada por você, tem a imensa e incomparável graça da espontaneidade – se você a chama de madrugada para tomar café em copinho de isopor de loja de conveniência de posto de gasolina, ela vai, com o esmalte lascado e cabelo preso meio de qualquer jeito. E vocês conversam até quase amanhecer, caminhando pela rua. E talvez vocês subam a seu apartamento para transar. E ela não pedirá desculpas por não ter se depilado.

A mulher que não está apaixonada por você não te chantageia com suas carências – ela concorda contigo que a carência é algo insaciável, que ninguém pode fazer coisa alguma a respeito da carência alheia. Nem te atormenta com seu ciúme – ela também acha que todo ciumento, sem exceção, apenas projeta no outro a própria e inconfessável vontade de pular a cerca. Por fim, ela acredita, como você, que não há, entre aspas, amor ou mesmo uma vida sexual satisfatória que compense ter por perto uma pessoa medíocre e ordinária, cujo discurso, cujo blábláblá vai se infiltrando em nossa mente e nos transformando, aos poucos, em pessoas igualmente medíocres e ordinárias.

É isso aí. (Ou, como costuma dizer aquele cara, Eduardo Haak, oh yeah.) A mulher que não está apaixonada por você talvez seja o mais próximo da perfeição a que um homem pode almejar. O único risco que essa mulher oferece é o de que você acabe perdidamente apaixonado por ela.


 
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