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Homens Narcisistas
Em certos homens a autodepreciação pode ser sintoma de um narcisismo extremo.
 
Por Eduardo Haak
Sabia que você é o homem mais narcisista que eu já conheci na vida?, ela me diz, deitada de lado, com as pernas enroladas num lençol. São sete horas da manhã e estamos num motel. Vejo a claridade pelas frestas de uma persiana e sei que quando sairmos desse útero profano e formos dados à luz do dia ela se estilhaçará em minhas retinas e seus cacos minúsculos ficarão ali, não sei por quanto tempo, implacáveis e punitivos. Penso que talvez fosse preferível ser um conde drácula para que o sol me transformasse de vez num punhado de pó.

Hum. Por que você me acha narcisista?, digo a ela.

Não sei. Não é uma coisa óbvia, não é algo que se perceba num primeiro momento.

Hum.

Por exemplo, tem aqueles sujeitos superficialmente vaidosos, entende? Aqueles caras que malham na academia e andam com os peitorais estufados, usam camisetas justas. Ou então tem os que gostam de ostentar o carrão novo, o relógio. Claro, esse não é seu caso, você não é um desses pavões, um desses sujeitos ingênuos.

Rio e digo, você acha mesmo que esses sujeitos são ingênuos?

Acho. Por quê? Você não acha?

Talvez. Talvez alguns sejam. Mas acho que muitos desses caras, muitos desses vaidosos aparentemente ingênuos e primários, simplesmente sabem por instinto o que de fato impressiona uma parcela significativa das mulheres, senão a maioria delas. E não se arriscam em jogos de sedução mais sofisticados.

Não sei. Eu, pessoalmente, nunca fiquei com nenhum cara só porque ele tinha grana. E acho isso, putz, patético.

Tá, isso é você.

Hum-hum.

Bom, você começou falando sobre meu suposto narcisismo.

Ah, é, por falar em narcisismo, voltemos a falar sobre o cavalheiro aqui presente, ela diz, rindo.

Se você quiser falar sobre o seu narcisismo, fique à vontade.

Você me acha narcisista?

Toda mulher é narcisista. O narcisismo em si não é o problema, o problema é quando a mulher, além de narcisista, é burra e vulgar. E ostenta, narcisicamente, sua vulgaridade e burrice.

Hum.

Que nem, outra noite eu estava esperando um amigo na portaria do prédio dele. Aí chegou um sujeito e duas garotas. Eles estavam bem vestidos, embora o cara tivesse meio pinta de pagodeiro, de jogador de futebol. Eu fiquei na minha, mas acho que já estava pressentindo que ia testemunhar uma revelação ali com aquela tchurma. Nisso chegou um entregador de pizza. O porteiro abriu pro cara, aí o cara, que estava com as mãos ocupadas por causa das pizzas, empurrou o portão com o lado do corpo pra fechá-lo, só que acabou empurrando com muita força e o portão fez aquele puta estrondo, plou! Aí uma das garotas lá, uma das acompanhantes do pagodeiro, disse, e disse alto, pro coitado lá escutar mesmo, “Esse aí não tem geladeira em casa...”. Preciso dizer mais alguma coisa?

É. Não tem Dolce & Gabbana que disfarce coisas assim, ela diz, rindo. Olha, acho que eu tive um insight agora.

É mesmo? Então vai lá, Carla Gustava Jung. Manda.

Então, o seu narcisismo tem tudo a ver com essa coisa autocrítica sua, autoirônica, às vezes até autodepreciativa. Se você não fosse tão fascinado por si mesmo, não se daria ao trabalho de se autocriticar tanto, de se debruçar tanto sobre sua própria imagem.

Hum. Bom, eu não me acho tão fascinado assim por mim mesmo. Eu apenas venho há quase quarenta anos tentando entender um pouco essa roubada em que fui metido à minha revelia. É um pouco diferente. Em todo caso, sua análise não deixa de fazer algum sentido. Te incomoda meu, vá lá, narcisismo?

Não, sem problema. Você pode ser narcisista. Você não é vulgar nem burro. E é até que gostoso, também.

Olha só, ser chamado de gostoso nessa altura da vida. Thanks, honey.

You´re welecome.

 
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