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O orgasmo feminino e a saia curta
Trancada no porão, a sexualidade só cria estragos - ou você realmente acha que apenas um vestido curto pode transformar estudantes em animais?

Definitivamente Hollywood presta um desserviço ao orgasmo feminino. Basta uma encoxada meia boca num canto qualquer para a atriz – que não tem barriga, não tem celulite, não tem bumbum molinho, praticamente nem mais corpo tem – gemer, uivar, subir pelas paredes e derrubar os móveis da sala. Então, o homem que assistiu a uma centena desses filmes encontra a mulher real e acha que friccionando seu clitóris como quem dá polimento num carro vai arrancar dela orgasmos múltiplos.
 
Estima-se que a dificuldade para alcançar o orgasmo seja compartilhada por 1/3 das mulheres no mundo. E não é para menos: crescemos ouvindo coisas do tipo “tira a mão daí, menina!”, enquanto nossos primos ganhavam revistas eróticas dos pais. E assim o fosso foi se abrindo: os meninos empunhando seus membros com orgulho e nós com vergonha daquele buraco negro ali embaixo.
 
A liberdade sexual que nós, mulheres, supomos viver no Brasil não existe. Compre qualquer revista para adolescentes e veja o teor das matérias: “não seja fácil”, “não dê mole se ele não quiser namorar”, “descubra se o gato só quer transar com você e caia fora”. Ou seja, o caminho que é apontado para as jovens leitoras não é, nem de longe, viver o sexo de maneira natural, responsável e, sobretudo, sem estúpidas e preconceituosas travas. 
 
E não adianta achar que é possível ser feliz sem estar em harmonia com essa área: a sexualidade, vivida ou sublimada, está presente em tudo o que fazemos, ela é a seiva que estimula nosso desejo de trabalhar, de se divertir, de se doar, de criar, de amar enfim. Trancada no porão ela só cria estragos - ou você realmente acha que apenas um vestido curto pode transformar estudantes em animais? Bem, se eles forem incrivelmente mal amados e mal resolvidos (e é óbvio que são), até um colchete aberto pode gerar um assassinato.
 
Me lembro de certa vez em que, na faculdade, eu discutia acaloradamente com uma colega (ela havia sido representante de classe do ano anterior e eu assumi o encargo no ano seguinte). A tal discussão degenerou a ponto dela me acusar: “Você é uma mal-amada!”. Minha resposta foi a única possível: a verdadeira.
 
- Mas é claro que eu sou uma mal-amada! Mal-amada e malcomida! Ou você acha que eu estaria aqui discutindo essas imbecilidades com você se o homem que eu desejo estivesse me esperando lá fora, hem? Dããã!!!
 
Voltando ao orgasmo feminino, não há um único, certo e infalível caminho para se chegar a ele, pois o mapa do tesouro é diferente para cada uma de nós. Seja lá de que maneira for – com dedos, línguas, livros, paus, palavras, pilhas –, o importante é que, na cama e fora dela, nossa sexualidade floresça (em vez de se desvirtuar em agressividade contra os outros e contra nós mesmas).

 
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