Por Stella Florence
A gente nunca sabe quando alguma lembrança ficará marcada para sempre em nós. O.k., todas ficam, mas eu não estou falando sobre o que o oceano do inconsciente engole, mas daquelas lembranças que vão preenchendo as prateleiras da nossa vitrine humana, aquelas de que, vira e mexe, nos lembramos como se estivessem sob um contínuo feixe de luz.
Escolhi o tema desta crônica justamente porque o Multishow agora exibe o videoclipe da música Open your eyes, do Snow Patrol. Apesar de achar uma delícia o vídeo (uma câmera percorre ruas: é só isso e é perfeito), eu me recordei da ilha de Guadaloupe, da van lotada em que eu estava, de uma amiga começar a cantar essa canção, de eu ajeitar os óculos escuros e me unir a ela, de, em pouco tempo, todos na van estarem aos berros: Tell me that youll open your eyes.
Me lembro de, aos onze anos, ir para o colégio com o uniforme das olimpíadas do Cristo Rei: uma saia vinho (a saia mais curta que eu já vesti em toda minha vida) e uma blusa sem mangas, branca e vinho, com um águia bordada no peito. Me senti nua na rua. E me senti ótima.
Me lembro da porta do apartamento da minha prima Olívia Florence (não por acaso, o nome da minha filha). Eu tinha por volta de dez anos e ela, quase oitenta. Me lembro do sol que iluminava sua varanda, dos seus móveis escuros e robustos, dos lanches fartos, das histórias sobre as várias partes do mundo em que ela havia morado, da máquina de escrever sobre a escrivaninha e, sobretudo, do quanto eu me sentia bem perto dela.
Me lembro de subir a pé, com minha amiga Regina, a Rua Morgado de Mateus num dia de chuva torrencial. Eu e ela estávamos completamente fora de órbita (desnecessário enumerar entorpecentes envolvidos). Bebi a água que caía de todas as calhas, pulei em todas as poças e ri como um chimpanzé de pôster.
Me lembro de ter levado minha mãe a um show em que Carlos Fernando, Paula Lima e Cauby Peixoto interpretavam canções de Lupicínio Rodrigues: um arraso! Naquela época mamãe ainda não tinha as tremendas dificuldades de locomoção que tem hoje, portanto, quando o show terminou, eu e ela saímos a pé, de braços dados, pela noite fria. Lentamente, avançamos pelos quarteirões que separavam o Sesc Vila Mariana da minha casa, enquanto cantávamos: "Felicidade foi-se embora e a saudade no meu peito ainda mora...".
Me lembro de estar, aos quatro anos, sentada em uma escadinha portátil, na casa da minha tia Glória, e dela ter me perguntado por que eu estava tão quieta. Porque eu não quero gastar minha língua respondi, convicta de que meu órgão iria se derreter com o uso. Lembro dela rindo e me dando um prato com goiabada cascão e queijo cabaça.
Por que isolei na minha vitrine humana essas e não outras memórias? Não faço a menor ideia. Você faz? Mas não deixa de ser excitante imaginar que o próximo minuto pode trazer uma experiência da qual iremos nos lembrar para sempre e que nem eu, nem você, temos o menor controle sobre isso.
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