Por Daniel Batista
Fonte: Baby & Cia/ed.5
Foto: Símbolo Imagens
Até trinta ou quarenta anos atrás, nem de longe o papel da mulher na sociedade se assemelha ao que é hoje. Prevalecia uma espécie de predestinação transportada de maneira natural e intocável, salvo uma ou outra exceção, de geração para geração. A mulher era criada para ser mãe, esposa e cuidar de casa. Nunca pensei em trabalhar fora. Cresci vendo minha mãe passar dois dias da semana preparando a massa e o molho do
espaguete servido nos almoços de família. Cada tia trazia alguma coisa para o grande encontro que acontecia aos domingos. Tudo feito em casa com o maior capricho.
O relato da mãe de três filhos, avó e bisavó Santa Munhoz, hoje a caminho dos 70 anos, como ela prefere dizer, dá o tom de como as coisas eram. Nós trabalhávamos muito, meu fi lho, mas em casa. As famílias também eram maiores. Não faltava coisa para fazer. Agora tudo é diferente. As mulheres
primeiro se formam e depois vão pensar em casar e ter filho. Uma estatística da Fundação Getúlio Vargas indica que a média era de 6,2 filhos para cada mulher na década de 70 hoje está em 1,8.
Um dos fenômenos relacionados com esse novo cenário social é a mudança no papel da mulher. Cuidar exclusivamente de casa e dos filhos já quase não é uma obrigação imposta pelos costumes. Os estudos e o desenvolvimento profissional agora são encarados como uma necessidade
inquestionável. No entanto, a maternidade continua sendo uma vocação presente na vida da maioria das mulheres. A questão é que nem sempre
é fácil conciliar tudo numa boa. Não pensava em ser mãe naquele momento. Tinha acabado de receber uma promoção. Foi difícil aceitar.
A executiva Daniela Viegas, hoje com 32 anos, diz ter descoberto outro dilema, mesmo já afastada do trabalho para cuidar da pequena Aline. Quando ela já estava com três meses, comecei a me preocupar novamente de uma forma mais intensa. Tinha receio de que tudo fosse diferente quando
eu voltasse. Não queria perder o espaço conquistado. A mulher no mercado de trabalho pode fazer escolhas como qualquer homem, mas, quando
vem a gravidez, ela é obrigada a desviar seus objetivos, ainda que isso demore mais ou menos para acontecer, dependendo de
cada situação.
É diferente do pai, que tem a chance de continuar levando uma rotina
profissional praticamente normal, mesmo com a chegada do bebê. A maioria das mulheres com carreira consolidada opta por ser mãe após os 35 anos, diz a ginecologista e obstetra Denise Coimbra, especialista em
reprodução humana da Unifesp. Elas esperam e se previnem contra a concepção até o limite do relógio biológico. Contudo, após o nascimento, é necessário assumir a responsabilidade sobre o bebê. A sociedade cobra essa atitude. A diferença talvez esteja ligada ao momento da maternidade.
Planejamento da Maternidade
Encontrar o momento certo dá à mulher a chance de se preparar
para todas as mudanças que acompanham a gravidez. Por outro lado, insegurança, medo e sensação de impotência são características do impacto que surge quando a maternidade é uma surpresa. Quando a gravidez ocorre em um momento profissional crítico, como o meio de um projeto importante, após uma promoção ou o início em uma nova empresa, pode gerar também certa sensação de frustração, afirma a psicóloga Regina Silva. Recomendo o planejamento para evitar situações como essa,
as nem sempre é possível."
Gravidez não é doença, defi ne. O segredo, orienta, é tentar equilibrar os sentimentos e entender que é preciso conviver bem com o adiamento ou até
mesmo o abandono de projetos profissionais. O desconforto e a diminuição de ritmo se impõem, mas são temporários. Não há como modificar isso. É preciso saber levar com naturalidade até o momento de decidir pela volta ao
trabalho ou não.
Retomar ou abandonar a carreira
Numa sociedade altamente competitiva, o período da licençamaternidade
muitas vezes é povoado pelo fantasma da demissão ou da perda de espaço
profi ssional. São conflitos que estão colocados e que fazem parte da difícil administração do mundo privado do lar e do espaço público do trabalho,
diz Elisa Esper, doutora em Psicologia Clínica pela PUCSP.
A primeira dúvida é com respeito ao momento certo para retomar a atividade profissional. Segundo a especialista, estudos mostram que as mulheres que protelam o retorno ao trabalho até que os filhos cresçam têm
muita dificuldade em arrumar colocações. Com isso, muitas passam a se sentir deslocadas, desatualizadas e mesmo despreparadas.
A única alternativa que acaba sobrando é o abandono da vida profi ssional para a dedicação exclusiva à família. Mas existem maneiras de conciliar
as diferentes necessidades que se apresentam e amenizar o conflito entre cuidar do filho ou da profissão. Tudo fica mais fácil quando se tem uma rede
de apoio, que pode vir tanto de familiares quanto de profissionais
contratados para esse fim.
Algumas empresas chegam a oferecer a possibilidade de a criança ficar numa creche própria, o que diminui bastante a angústia da separação. Além do mais, nesse caso, estar perto do bebê permite até mesmo a continuidade do aleitamento materno. De qualquer forma, afirma Esper, é importante que a preparação para o retorno profissional não seja deixada para o fim da licença-maternidade. A ansiedade diminuiu muito e a tranquilidade aumenta quando se pode planejar e executar um esquema que atenda às necessidades da mãe e da criança.
Embora exija muita disciplina, tem servido como uma opção muito apropriada para conciliar os papéis de mãe e profissional, comenta Elisa
Esper. Sem contar que tem um impacto muito positivo na qualidade de vida. Planejar o momento da gravidez também pode ser útil para que
outros aspectos sejam analisados com serenidade e critério. Não raro, a mãe desempenha alguma atividade informal que não está coberta por todos os direitos assegurados em lei. Situações como essa exigem que se faça
uma poupança prévia para pagar as despesas que virão junto com a
queda de receita. A chegada de um bebê é um momento único, sem
dúvida, mas pode ser ainda mais especial quando é planejada.