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Você é o que você compra?
O consumismo pode trazer problemas

Por Thays Andrade
Fonte: Revista Babara / ed.1
Foto: Símbolo Imagens
 
À medida que cresce o número de opções nas vitrines, acredite, aumenta também nosso grau de insatisfação. Muitas de nós ainda não se deram conta desse jogo que promete felicidade por trás de cada objeto de desejo.
 
Comigo você pode ser sincera: é um tal de compra, compra, não é mesmo?! Vai para o shopping, volta do supermercado, vai àquela loja, volta, dá uma olhadinha naquela outra... Ai, que encrenca! Mas isso não é só com você, não. Até a crise econômica vir à tona no ano passado, o mundo vinha num ritmo crescente e acelerado de consumo, muito influenciado pelos padrões norte-americanos. Além de um ciclo de vida das mercadorias cada vez mais curto, nos últimos cinco anos, começamos a presenciar também
o lançamento de produtos temporários. O estímulo para que a economia dos países continuasse a crescer induziu a nós, consumidoras, a uma constante insatisfação, que nos levava a buscar mais novidades e exclusividade em nossas compras.
 
Para garantir que a fórmula continuasse dando certo, o desejo de posse foi substituído pelas sensações geradas pelo próprio ato de adquirir, ou seja, depois de comprar, o produto perde a graça e é hora de consumir de novo.
Porém, a falta de dinheiro nos Estados Unidos e em outros países do mundo tende a mudar esse cenário daqui pra frente, e é bom ficar atenta às transformações que já começaram a ocorrer. O primeiro passo para se adaptar a esse novo modelo que está para surgir é se questionar:
por que eu compro tanto?
Fátima Milnitzky, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo, diz que o consumo é o que define a subjetividade moderna. “É por meio do consumo que nos apresentamos ao outro, para que ele possa nos ver e nos desejar”.Ela diz que, no lugar da utilidade de um produto, “o que se vende é a imagem de realização, beleza e gratificação amorosa. As pessoas compram um sonho”. Para Beth Furtado, psicóloga com atuação em Marketing e Comunicação e autora do livro Desejos Contemporâneos, o consumo de produtos e marcas, hoje, está ligado à diferença que existe entre o que somos e o que gostaríamos de ser. Isso vale para as mulheres que gastam três mil dólares em uma bolsa ou para aquelas que não dariam cem reais no mesmo produto, mas usariam o dinheiro para uma viagem de classe executiva. “A questão não está na bolsa ou na viagem. O consumo de marcas e produtos tem a ver com o valor e o significado que cada uma atribui a eles, com a sensação que provocam e no que a mulher se transforma ao usá-los”.

Nem sei para que tanto...
 
A capixaba Amanda*, de 30 anos, doutoranda em Tecnologia de Alimentos, tem um armário cheio de roupas ainda com a etiqueta e ela se recusa a usar qualquer uma das opções mais do que duas vezes. Apaixonada por
bolsas, sapatos e, especialmente, roupas, não resiste a uma vitrine e dificilmente consegue atravessar o corredor de um shopping para chegar até o cinema sem entrar em, pelo menos, uma loja (qualquer semelhança com sua própria realidade, não é mera coincidência!). “Gosto de ter tudo o que está na moda. Não compro apenas o que preciso, até porque eu não preciso de nada, mas acabo levando todas as peças que me chamam a atenção.
Enjoo rápido e preciso sempre comprar mais”, admite.
Beth Furtado observa que certos ambientes femininos estimulam ainda mais esse tipo de comportamento. Você mesma já deve ter frequentado lugares em que foi olhada de cima abaixo, como se as outras mulheres fizessem um
raio-X para identificar quais marcas você estava usando e com que carro chegou por ali. Diagnóstico aceito, você é inserida na rodinha, caso contrário, pode ficar a noite toda vagando sozinha. “Esse tipo de julgamento é de uma pobreza ímpar”, comenta a psicóloga.
 
Situações como essa também abriram espaço para o mercado que aluga
praticamente tudo, de um jardim até uma Ferrari. “Essas modalidades de consumo visam atender a essa sensação de efemeridade”, explica Beth.

O que o dinheiro paga
 
É preciso ficar de olho nos signifi cados que damos às tantas coisas que consumimos. Em alguns casos, a compulsão por comprar pode tomar proporções absurdas e sair completamente do controle. A empresária carioca Valéria*, 40 anos, se recupera de uma falência financeira e emocional. Frequentadora do grupo de apoio Devedores Anônimos (sim, isso existe) há cinco anos, ela conta que era uma “caçadora de ilusões”. Filha de milionários, seus gastos compulsivos começaram aos 13 anos. “Na minha família, o afeto sempre esteve muito ligado a bens materiais. Eu ia ao shopping e comprava coleções inteiras de grifes”. A necessidade de ser aceita transformaram-se, à medida que foi se tornando adulta, na compra de amor e sexo de homens menos ricos que se aproximavam dela.

Roupas, sapatos e acessórios de marcas famosas eram suas armas de sedução. Ela ainda pagava restaurantes e motéis caríssimos para alimentar a falsa sensação de poder e superioridade. Aos 30 anos, Valéria estava com todos os cartões de crédito estourados, vários cheques sem fundo na praça e tinha perdido a empresa. Seu atual relacionamento desmoronou e ela perdeu qualquer credibilidade com a família. “Entendi que, se não mudasse a forma de ver o mundo e percebesse o meu valor, continuaria buscando amor e felicidade em coisas externas. Os objetos se humanizavam e eu é que me tornava uma mercadoria”.
Dez anos depois, Valéria está colocando as últimas dívidas em dia, inclusive as que assumiu consigo mesma. Ela ainda não se sente apta a ter cartão de crédito ou cheque, compra à vista quando tem dinheiro. Evita gastar quando está na TPM, carente ou entediada, faz lista de compras antes de sair de casa, verifi ca preços e não compra motivada somente pela marca.
 
O exercício de autoanálise é constante. Antes de adquirir qualquer coisa,
se pergunta: Eu preciso disso? É esse o produto que eu quero? Qual é o meu verdadeiro objetivo ao comprar isso?
 
Compra que preenche vazios
 
Às vezes, outras questões além da imagem e da necessidade de aceitação estão por trás de um hábito de comprar exageradamente. É o caso da publicitária de Belo Horizonte Cristiana Guerra, de 39 anos, autora do blog Hoje vou assim, em que faz um diário com fotos que mostram como ela se veste a cada dia para ir trabalhar. Ela se considera uma ex-consumista compulsiva.
Desde a morte da mãe, há quinze anos, Cris procurava preencher sua ausência e tantos outros vazios comprando roupas e sapatos. “Era prazeroso pagar para ter o que eu desejava. É algo do tipo: eu tenho dinheiro, me dá o que quero e pronto”. Essa era a única coisa que lhe dava
a sensação de ter poder e estar no controle. E, claro, o cartão de crédito cansou de estourar.

Fátima Milnitzky alerta sobre o uso do bendito (maldito?) cartão que, segundo a psicanalista, é uma forma de plantar uma dívida no futuro por uma satisfação imediata. “Depois que compramos e a satisfação passa,
sobra apenas uma dívida chata, então vamos comprar outra satisfação, e fazemos uma nova dívida”.
 
Cris conta que só conseguiu sair desse estado compulsivo quando parou de se culpar pelo que consumia e transformou sua relação com seu objeto de desejo. Hoje, Cristiana é reconhecida em todo o país por seu senso estético e forma opiniões. Se vestir agora é uma brincadeira de construção de personagens que a ajudam a lidar consigo mesma. Por causa do blog, ela ganha boa parte das roupas e sapatos que usa e quando sai para
fazer compras, vai direto em uma de suas lojas favoritas, compra a única peça de que precisa e vai embora.

O consumo, em si, não é mais sua fonte de prazer. Ela confessa que ainda tem difi culdades em guardar dinheiro, mas sustenta o filho sozinha e não tem mais problemas com o cartão de crédito.
 
É hora de simplificar
 
Enquanto boa parcela da sociedade insiste em continuar consumindo muito, ganha força um movimento contrário, que valoriza a simplicidade. “Muitas vezes essa tendência é apenas revisão de gastos das empresas que desejam economizar em função da crise, mas não importa, o efeito
disso é a simplificação”, diz Beth Furtado. Vemos isso nos sites, que estão mais limpos, no próprio design de produtos e até no vestuário. “Algumas
empresas já adotaram o estilo casual na sexta-feira, e outras em tempo integral. Hoje, com uma calça jeans e uma camiseta branca, uma mulher pode ir ao supermercado e a uma festa, isso vai depender mais dos complementos do que da roupa em si”, observa.
 
Felizmente, essas mudanças também têm transformado os valores humanos. “Mulheres estão deixando seus trabalhos porque não aguentam mais a pressão a que têm sido submetidas, às vezes semudam de cidade e estão até ganhando menos por uma vida menos complicada e com mais paz de espírito”, conta a especialista em Marketing.
E você, tem buscado paz ou só comprado coisas?
 

 
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