
Há 13 anos eu não tinha a mais remota ideia do que fazer da vida. Certa madrugada, me sentei numa poltrona, coloquei um CD da Zélia Duncan e... escrevi meu primeiro texto! Quando terminei, tive a sensação de que, finalmente, eu havia nascido.
O texto longínquo se chama Tanto tempo faz e agora eu o divido com você.
Acho que preciso dormir. Há quanto tempo mesmo estou acordada? Ah! Não importa, não hoje. Pensando bem, acho que não vou dormir agora, nem mais tarde. É. Definitivamente, não vou.
Eu sei dos efeitos terríveis de permanecer em vigília, mas não posso dormir, senão essa certeza tão rara de que aconteceu o que aconteceu vai desaparecer sem que eu possa fazer algo para impedir!
Afinal, uma noite bem dormida, ou menos, apenas um cochilo será suficiente para carregar para longe esta sensação, tão próxima agora, de que eu dormi com você hoje. Como se quando eu caísse no abismo negro do sono uma brisa começasse a soprar. E essa brisa passasse a vento, a ventania, a tempestade, a tornado, desassossegando todas as células mortas-vivas da sua pele que estão ainda pousadas na minha pele, cristalizando todos os seus líquidos em mim, varrendo-os como poeiras salinas em direção a um país estrangeiro, e aquela maravilhosa dor nos ossinhos internos sendo ininterruptamente balsamizada pela chuva até só restar uma sombra dela no meio das minhas pernas, ah, não! Tudo antes que pudesse recolher alguma coisa, qualquer coisa sua, com mãos sem ritmo pelo ar: quando eu finalmente acordasse, meu corpo estaria limpo de você. Não! Eu não quero dormir!
Está vendo? Foi por isso que eu pedi: morde! Para estender esta certeza de ter dormido com você hoje além do sono, do sonho, dos tornados. Uma boa marca duraria o suficiente. Uma marca daquelas que não avermelham apenas, mas deixam um hematoma significativo, se possível sangram, criam casca, tatuam um sinal na pele por sob a casca, sinal rosa albino, que sob o sol se torna brilhante, quase como uma estrela, ali para me provar o tempo todo que eu dormi com você. Ah, uma marca dessas permitiria que eu dormisse! Duraria até uma próxima vez, daqui a um ano, quem sabe dois... seu desejo por mim é tão delicado, tão suscetível às susceptibilidades da vida...
Eu sei que não devo, nem posso insistir numa reprise em pouco tempo &O1485; nem em muito. Se eu der uma raspadela de unhas na pétala translúcida do seu desejo tão delicado por mim irei feri-la irremediavelmente, cicatrização débil na certa. Urge esperar até que uma nova flor a minha, a mais frágil de todas brote por entre seus pêlos e volte seu caule para mim.
E se eu pensar melhor, você nem me dá tempo de não querê-lo mais, não dá oportunidade de achá-lo desinteressante, tamanha a rapidez com que vai embora, e talvez seja esse o seu Grande Segredo de Sedução. Você não seduz, apenas calcula o tempo certo para que eu sempre o invente: então eu invento, invento, invento. Invento que você merece que eu não durma e eu não vou dormir.
É preciso muito tempo até que eu me torne, de novo, qualquer coisa ligeiramente especial e curiosa, daquelas com as quais você não convive, e por não conviver supõe situações estranhas, supõe aventuras perigosas, supõe mudanças radicais, supõe poder ser até interessante verificar se algumas dessas suposições (que nascem todas dois minutos antes de você procurar a agenda e ligar para mim) se tornaram realidade, afinal, tanto tempo. Tanto tempo faz.
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