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Uma das minhas várias primeiras vezes
Denise era uma menina legal. Mas os garotos achavam que ela ia cortar o barato deles de falar livremente palavrões e escatologias.
Nostalgia é o fascínio que sentimos por coisas que ficaram para sempre no passado, que não cabem ou não têm mais sentido no presente, que se tornaram, dessa forma, irrecuperáveis. E uma das coisas mais enganosas da nostalgia é que ela nos leva ao fascínio por coisas que, no passado, não valiam grande coisa. A nostalgia transforma o banal em sublime, o ordinário em extraordinário. Nossa hierarquia de valores fica meio bagunçada quando somos tomados por esse sentimento, no fundo, mórbido.

Por que estou falando essas coisas? Acabei de digitalizar um vinil para uma amiga, da banda inglesa Bliss. Essa banda fez sucesso durante alguns meses de 1989, com a música “I hear you call”. Depois disso, despontou vertiginosamente para o anonimato. (Acho que “I hear you call” foi usada numa propaganda de cigarro na época. Sim, jovens leitoras do iTodas: já houve no mundo uma coisa chamada cigarro. E – fato absolutamente espantoso – esse tal de cigarro era uma coisa anunciada normalmente em rádios, TVs, jornais, etc., etc.) Mas volto a falar sobre o Bliss. Essas bandas assim, que fizeram sucesso por pouco tempo, há quinze, vinte anos, têm um tremendo poder de desencadear experiências nostálgicas. Fazendo uma comparação, ouvir hoje Duran Duran não me dá sensação nostálgica nenhuma, embora a banda seja um dos símbolos dos anos 80. E por quê? Porque “Save a Prayer” vem tocando ininterruptamente em nossas rádios desde 1982, se atualizando, se integrando dia a dia à nossa paisagem sonora.

Sim, digitalizar o vinil dessa perecível, evanescente, fugaz e datadíssima banda, o Bliss, me levou de volta, com espantosa nitidez, aos meus dezoito anos. Lembrei-me de um episódio ocorrido nas férias de janeiro de 1989. Estávamos em Vila Caiçara, Praia Grande. Como sempre acontecia nessas ocasiões – férias de janeiro –, acabei me engraçando com uma garota. Geralmente essas garotas eram agregadas da família de meu amigo Elton. A dessa vez se chamava Denise. Era uma menina legal, engraçada, sem frescuras, que gostava de ficar no meio de nós, meninos, sob protestos dos mais machistas, que diziam que ela cortava o nosso barato de ficar falando besteiras, palavrões e escatologias. Eu achava esse machismo uma babaquice e insistia na permanência de Denise entre nós. Claro, também porque eu já estava de olho nela, mas também porque ela era uma pessoa de fato divertida. (Bonita? Bom, ela era uma mistura da atriz Molly Ringwald com o cantor Christian, da dupla sertaneja Christian & Ralf.) Aí a molecada, para ir à forra, botou nela o apelido de Mandruvinha – ela havia contado que seu pai uma época só usava roupas verdes e que o pessoal do escritório botou nele o apelido de Mandruvá.

Pois foi da Mandruvinha o primeiro seio que vi num contexto, vá lá, vagamente erótico. (Sim, eu era virgem aos 18 anos.) Estávamos tomando um banho de mar, a molecada toda e ela, quando uma onda forte bateu, deslocando um pouco a parte de cima do seu biquíni. E ela se fez de distraída, deixando um peito à mostra para eu ver. E eu, na manezice dos meus dezoito anos, me fiz de distraído também, não dando especial atenção ao fato. (Isso por fora. Por dentro, eu estava em estado de absoluta graça.) Enquanto isso, os machistazinhos alopravam com ela, cuspiam em sua cabeça como se estivessem tirando sal dos lábios, mas, eu sei, eram cuspes propositais. Comentaram depois, “Vocês viram que a idiota da Mandruvinha ficou com os peitos de fora no mar? Além de burra e folgada, a mina é uma vadia”. Denise não era burra, folgada, muito menos era uma vadia. Desde então passei a sentir um profundo horror do machismo e suas delirantes opiniões.


 
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