 Fonte: Revista UM/ed.5
Foto: Símbolo Imagens
Ela sai de casa antes de você, mas chega bem depois. Você quer marcar aquela viagem no final de semana ou no feriadão, mas ela nunca pode. Uma comemoração com os amigos depois do expediente, ela não consegue chegar em tempo. Um jantarzinho a dois para surpreendê-la, quem sai surpreso é você, porque ela vai trabalhar até tarde de novo. Você se
identificou com alguma dessas situações? Então, seja bem-vindo ao clube que cresce cada vez mais, o dos homens que perderam suas companheiras para o trabalho.
Uma pesquisa realizada anualmente pela Catho Online mostra um
crescimento signifi cativo das mulheres em posições executivas. Em 2009, elas representam 21,43% dos cargos mais elevados (presidentes e
diretores), sendo que eram apenas 10,39% há 12 anos. Segundo o CEO
desta empresa, Adriano Arruda, habilidades extremamente essenciais, que vão além de competência técnica, são cada vez mais avaliadas pelos
recrutadores.
As mulheres, por uma questão natural, têm um jogo de cintura maior ao lidar com diversas situações ao mesmo tempo. E o novo líder precisa estar à frente de tudo sempre. Precisa ter um olho na operação e outro na estratégia. Creio que, por essas razões, elas vêm conquistando progressivamente esses altos cargos, ressalta Arruda. E para manter tal situação, elas acabam se dedicando muito mais, deixando muitas vezes sua vida pessoal em segundo plano. É nesse ponto que os homens começam a chiar, exigindo mais tempo e atenção.
O mercado ainda é novo e para a mulher galgar seu espaço é preciso
dedicação. O que ela nem sempre consegue é fazer isso com paciência e equilíbrio, diz Lygya Maya, coach, terapeuta holística e autora do livro Ame as Emoções que Você Odeia. Trabalho versus amor Até alguns anos atrás, eram elas que reclamavam que seus parceiros trabalhavam demais, que eles chegavam tarde em casa e que estavam sempre ocupados.
Mas essa situação está se invertendo. As mulheres conquistaram seu lugar no mundo corporativo e muitas delas já não têm mais tempo para investir
em seus relacionamentos. O psicólogo e terapeuta de casal, Antonio Carlos Alves de Araújo, conta que os casos que ele mais atende em seu consultório são decorrentes dessa disputa profissional. As pessoas não investem
mais no relacionamento, só no trabalho, por isso o número de
divórcios aumentou tanto. A solução não é a mulher desistir do emprego, mas ela tem de priorizar a questão afetiva, gerenciando não só o tempo que fica dentro de casa, mas a qualidade da relação que cultiva nesse período.
Araújo chama a atenção para uma outra possibilidade. O fato de a mulher
trabalhar demais nem sempre é a causa do problema, mas uma fuga
de uma vida pessoal infeliz. Essa situação refl ete a grave crise conjugal
que vivemos hoje. A falta de tempo pode ser resultado da fragilidade
da relação, uma desculpa para não ficar em casa. Então, o trabalho lho torna-se uma fuga, ressalta.
Um indício dessa inversão de papéis são os números da pesquisa
A Contratação, a Demissão e a Carreira dos Executivos Brasileiros, realizada pela Catho Online. Para este estudo foram ouvidos
mais de 16 mil profissionais durante os meses de março e abril deste ano. O resultado? Quase 30% dos homens ganham salários inferiores aos de suas esposas. E, na opinião de Araújo, o que deveria ser uma solução acaba se tornando um problema. O dinheiro é o tabu. Quase 100% do universo
masculino ainda não admite que a mulher ganhe mais. Isso gera
uma competição entre os dois. E quanto mais evoluído financeiramente
o casal, maior o conflito, afirma o psicólogo.
Bloco das reclamações
Rodrigo Athaydes, de 29 anos, recém-casado com uma médica oncopediatra, é um desses que confessa que essa situação o incomoda bastante. Não gosto de admitir e nem de transparecer nada. Mas não
fico confortável com o fato de ela ganhar mais do que eu. Eu me cobro muito por isso. Você sente que a mulher acaba sendo dominante em tudo, revela.
Não é só isso que incomoda Athaydes. Na rotina de sua esposa, sobra pouco tempo para a vida em família e do convívio social. Ela trabalha muito. Mas
o pior é o final de semana. Só temos o domingo para aproveitar e quando ela tem plantão, nem isso nos resta. Outro que gostaria que a mulher mudasse de profissão é Mário Sergio Jardim, de 50 anos. Ele é casado com a superintendente de uma seguradora, que trabalha mais de 12 horas
por dia, viaja a serviço e não tem rotina definida. Não posso
contar com ela para nada. Tenho que me virar sozinho para cuidar da casa, fazer mercado, levar as crianças na escola. De tanto varar a noite, esperando pela companheira, acostumou com a ideia de tê-la por pouco tempo ao seu lado. Antigamente, eu ficava nervoso, agora já acostumei. Não adianta brigar, é o serviço dela.Mas se ela pudesse trabalhar em um lugar mais tranquilo, seria ótimo, afirma.
O incômodo de boa parte dos homens é historicamente justificável. Durante milênios, o macho foi o provedor da família, o responsável pelo sustento
da casa. A ascensão profissional feminina tem jogado por terra
essa tradição em um aparentemente caminho sem volta. Como é algo novo para ambas as partes, poucos descobriram como lidar adequadamente
com a situação. Elas estão infelizes pela sobrecarga de tarefas e o medo de perder o emprego. Eles por não terem suas parceiras ao seu lado. Difícil equação.
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